O ódio pelas mulheres | Por Contardo Calligaris


Concluindo a coluna da semana passada, lembrei que nossa cultura, há 3.000 anos, é fundada no ódio pela mulher como encarnação do mal e voz tentadora do demônio. Ou seja, a misoginia (o ódio pelas mulheres) está no centro de nossa cultura. Tomás C. de Arruda e outros leitores sugeriram que eu continuasse o tema.

O único livro que eu conheço sobre a misoginia de nossa cultura é o excelente “Misogyny – The World’s Oldest Prejudice” (misoginia, o preconceito mais antigo do mundo), de Jack Holland (Robinson, 2006).

Holland constata: “O mito da criação como é contado no Gênesis está agora no centro das crenças de 2 bilhões de cristãos em 260 países –ou seja, um terço da população do mundo herdou um mito que culpa as mulheres pelos males e os sofrimentos dos homens” (p. 68).

E, Holland observa, a figura de Eva, cúmplice da serpente e tentadora de Adão (que se perde por causa dela), não é uma exclusividade judeu-cristã: Pandora, a primeira mulher mortal da mitologia grega, também não respeita uma proibição divina e é causa de todos os males entre os homens.

Começa assim uma espécie de paranoia que está no senso comum: precisamos perseguir as mulheres para puni-las (por causa delas fomos expulsos do paraíso) e porque elas são as tentadoras –representantes do demônio e do mal.

Cuidado, qualquer tentador seria inócuo se ele nos propusesse pecados que não nos interessam: ele só deve ser perseguido porque ele nos tenta com nosso próprio desejo.

Holland reconstitui os últimos 3.000 anos de misoginia, mostrando que a caça às bruxas não é fenômeno que durou do século 15 ao 18 e matou 60 mil mulheres: a caça às bruxas é constante na história. Mas por que inventamos mitos originários geradores de tamanho ódio?

A hipótese de Holland é notável. O ódio pela mulher e a vontade de dominá-la nasceriam da diferença que separa os humanos dos outros mamíferos: nas fêmeas humanas, a ovulação é escondida.

Holland, citando Jared Diamond, lembra que, até 1930, mal se sabia em que momento a mulher era fecunda –os machos de outros mamíferos sabem instintivamente quando a fêmea é fértil e, por sorte deles, é bem quando ela está no cio.

As mulheres, com a ovulação escondida, são livres da compulsão (ou da obrigação) de estarem automaticamente disponíveis para a reprodução na hora em que são férteis. Elas ganham assim o poder de escolher os parceiros que preferem.

Ao homem resta a árdua tarefa de se propor e de decifrar se a mulher está ou não disposta a aceitar suas investidas. Nessa tarefa, os homens tentam influenciar as escolhas femininas: arte, cultura, guerra, procura de riquezas e poder, até a própria linguagem, podem ter surgido na tentativa de os homens agradarem uma ou mais mulheres.

Mas, ao mesmo tempo, os homens parecem não ter nunca desistido de acabar com a liberdade feminina de escolher os parceiros sexuais (e se deitar com eles).

Breve parênteses. Há uma excelente razão para sugerir um pouco de decência e silêncio aos homens que opinam a favor da criminalização do aborto: faz 3.000 anos (no mínimo) que os homens da nossa cultura estão inevitavelmente envolvidos no projeto de acabar com o desejo feminino e sua liberdade –eles esperam que as mulheres “voltem” à compulsão do cio, em que a reprodução seria o único horizonte da sexualidade feminina. Não seria sensato imaginar que um homem possa julgar em matéria de aborto sem seguir, querendo ou não, o declive natural da cultura ocidental.

Na nossa cultura, a mulher, em suma, seria odiada por excitar um desejo ao qual ela pode se recusar –ela é o alvo do desejo masculino e também ela decide se esse desejo será frustrado ou satisfeito.

O cristianismo, a partir de seus primeiros séculos (São Paulo, Tertuliano, Agostinho –nada a ver com Cristo), decretou que o prazer era um pecado e os desejos carnais deveriam ser reprimidos. A frustração produzida pela eventual recusa feminina foi assim substituída por uma combinação de repressão de nosso próprio desejo e ódio pela mulher, herdeira de Eva, que nos tenta e, ainda por cima, nos regula.

Com esse passe de mágica, as mulheres se tornaram (e continuam sendo) representantes de nossos desejos reprimidos. Quem gosta de se reprimir pode assim odiá-las como ele odeia seu próprio desejo.

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