Das relações familiares, a entre mãe e filha é a com mais rivalidade e inveja | Por Contardo Calligaris


Mariza Dias Costa/Editoria de Arte/Folhapress

A família é quase sempre disfuncional: ela mal se aproxima de seus próprios ideais educativos (por exemplo, o de produzir sujeitos autônomos, confiantes e que não sejam condenados a repetir padrões emocionais de sua infância). Agora, quando tentamos inventar algo novo e “melhor”, nos totalitarismos ou na contracultura dos anos 1960, produzimos consequências piores.

Ou seja, a família educa pela neurose e distribui boas doses de sofrimento na vida adulta de todos. Boa mesmo, ela é só para criar clientes de psicoterapeutas e psicanalistas. Mas, até aqui, é o melhor jeito que encontramos para criar filhos.

Na semana passada, comentando “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky, escrevi que, das relações familiares, a que ocorre entre mãe e filha talvez seja a mais infestada de rivalidade e inveja. A coluna suscitou muitas reações.

1) Algumas leitoras evocaram imediatamente Branca de Neve e Cinderela, sem nem mencionar que, nos contos, tratam-se de madrastas e não de mães.

Patrícia Maria evoca “Espelho, espelho meu, há alguém mais bela do que eu?” e pergunta: será que Branca de Neve, com suas filhas eventuais, repetiria a inveja da mãe? “Sinto que (ela) não repetiria, por conta da experiência na floresta com os sete anões.” Eu também espero que as filhas encontrem sempre os anões certos.

Seja como for, Patrícia tem razão ao associar a história de Branca de Neve com a inveja materna.

Os contos de fada atribuem afetos mortíferos às madrastas. E, de fato, as madrastas, em geral, são atormentadas pela rivalidade (explícita ou reprimida) com os filhos (e ainda mais as filhas) do primeiro casamento do marido. Mas o sucesso de Cinderela e de Branca de Neve mundo afora se explica por um artifício: demonizando a figura da madrasta, essas histórias conseguem contornar o tabu que protege e idealiza a figura materna.

Imagine um conto sobre uma mãe que pergunta ao espelho quem é a mais bonita e que não aceita que o espelho responda que é a filha.

Nossa incansável idealização da figura e da função maternas fariam que esse conto fosse rejeitado por muitos. Atribuir o ciúmes e a inveja a uma madrasta (e não a uma mãe) permite-nos pensar no lado B da mãe sem sequer admitir que ele existe.

2) Outras leitoras (por exemplo, Christiana Brenner) lembraram (com razão) que, além da rivalidade difícil entre mãe e filha, há a parcialidade da mãe: “Onde há filhos e filhas, os meninos são sempre tratados como príncipes por suas mães e as garotas com dureza e rigor”.

3) Outras, ainda, também com razão, comentam que, se as mães podem torcer contra o sucesso amoroso das filhas, as filhas, por sua vez, estão sempre prontas a negar a existência da vida amorosa e sexual da mãe. Um relato tocante: “De noite ouvimos ruídos estranhos no quarto dela –vamos ver o que é, afinal (ela) pode estar passando mal. Pasme! se masturba! diz: mexe, mexe, estou gostando, mais mais”. A leitora acrescenta que a mãe sempre se incomodou “exageradamente” com qualquer manifestação de sensualidade nas pessoas.

A relação entre mãe e filha é o objeto de bibliotecas inteiras de pesquisas, quase todas centradas sobre os efeitos da presença ou da ausência da mãe na filha criança, adolescente ou mulher. Em 1995, M. Rastogi inventou um questionário para verificar o estado da relação entre mãe e filha adulta (Mother-Adult Daughter).

O questionário é conhecido pelo acrônimo MAD, o qual, olhe só, significa “louca”. O MAD mede a conexão, a interdependência e a confiança na hierarquia; no fundo, ele parece querer saber se, na relação, há mãe demais ou mãe de menos –isso, para medir depois, na filha, as supostas consequências dessa presença excessiva ou escassa.

Em vez de medir se a mãe está ou não suficientemente presente, eu acho mais útil me interessar por seus pensamentos, seus afetos e seus atos em relação à filha. Enfim, duas leitoras garantiram que têm relações perfeitas com as filhas.

Certo, enxergo o mundo pelo prisma do consultório, que é o pronto-socorro das relações mal resolvidas.

Agora, como psicanalista, acredito que os bons sentimentos, quando existem, servem para estancar e esconder outros sentimentos, menos nobres. Também acredito que descobrir em nós mesmos esses sentimentos mais envergonhados seja o melhor jeito de evitar que nossa convivência (familiar, por exemplo) provoque transtornos desnecessários.

Fonte: Folha

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