Sempre há um exército dos mortos, que amam e propagam a morte | Por Contardo Calligaris


Na saga de “Game of Thrones” (na HBO), o exército dos mortos está avançando pelos espaços gélidos do grande norte. Ele vem, com o próprio inverno, para acabar com todos os vivos. É quase invencível, pois cada humano que é assim trucidado se transforma em soldado dos mortos. As vítimas do exército são automaticamente seus recrutas.

Talvez os vivos tenham uma chance de resistir se eles conseguirem lutar unidos. Mas o que eles têm em comum que permita que se unam? Jon Snow respondeu no episódio 5: os vivos todos respiram –eles compartilham só isso. No episódio 6 (exibido em 20/8), ele perguntou por que lutar contra o exército dos mortos, visto que todos morreremos um dia, de qualquer forma. Um companheiro lhe respondeu que tanto faz, a morte é o inimigo, e o inimigo sempre ganha, mas mesmo assim precisamos combatê-lo.

Primeiro, devo dizer que não estranho o exército dos mortos de “Game of Thrones”.

A morte é comum na iconografia cristã a partir da peste negra de 1346, que matou um quarto, calcula-se, da população mundial da época. Sua imagem mais frequente é a do esqueleto com a foice.

Essa figura não me apavora, desde que meu pai me explicou que a foice, antes de ser o instrumento da morte, era o atributo de Cronos, o tempo, porque a ceifa ocorre a cada ano e marca o passar das estações.

A morte com a foice é a morte natural, efeito esperado, embora não desejado, do tempo que passa e devora nossas vidas.

Outra imagem da morte me impressionava quando eu era criança. Visitei o mosteiro beneditino de Subiaco (dito o Sacro Speco, perto de Roma) aos seis ou sete anos. O edifício é lindo, colado contra a montanha, no lugar onde são Bento viveu um tempo como eremita, mas eu achava a visita cansativa e chata.

Isso até que me apontaram, numa abóbada, se me lembro direito, um afresco (justamente da época da grande peste) que apresentava a morte a cavalo, com uma espada (e não a foice) na mão, atropelando suas vítimas. Não queria me afastar, fugia da visita guiada e voltava para vê-lo novamente.

Anos depois, quando conheci Guernica, de Picasso, pensei que o cavalo no meio do painel era o da morte de Subiaco. Anos depois também, passando férias na Sicília, visitei o Palazzo Abatellis, em Palermo, e esbarrei no gigantesco “Trionfo della Morte”, no qual a morte, a cavalo, usa arco e flecha.

“Trionfo della Morte” (1446), obra de autor desconhecido exposta na galeria do Palazzo Abatellis

Em suma, a morte de “Game of Thrones”, a cavalo, liderando um exército de cadáveres, é para mim uma imagem familiar, uma versão quase padrão do quarto cavaleiro do Apocalipse.

Vamos agora à resposta do companheiro de Jon Snow: ele apenas diz que, por sermos vivos, deveríamos combater do lado da vida. Ele não diz que a vida seria um valor em si –prova disso, ele e o grupinho de Snow estão dispostos a morrer combatendo contra a morte. Concordo com eles, sobretudo porque não tenho nenhuma simpatia por quem está do lado da morte.

O que significa estar do lado da morte? Significa erotizar a morte, torná-la desejável e venerá-la como um valor. Será que, fora o improvável exército dos mortos, alguém faz isso? Claro que sim.

Antes de discutir se fascistas e nazistas são de esquerda ou de direita, seria bom lembrar que eles estão sobretudo do lado da morte: legiões de jovens com caveiras no braço, na lapela ou na boina, deliciando-se com a promessa de seu próprio sacrifício e do extermínio dos outros.

Mas não são só eles: sempre há um exército dos mortos em marcha. A literatura e o cinema nos lembram disso o tempo todo. Basta escutá-los. Quem eram os soldados do exército de zumbis que apareceu em 1968, na “Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero? É bom se perguntar, porque eles ainda estão marchando.

Em 1997, um grande (e pouco conhecido) escritor italiano, Giorgio de Maria, escrevia “Le 20 Giornate di Torino” (os 20 dias de Turim), em que estranhos fantasmas habitam a cidade e tramam a morte dos cidadãos. Não há melhor retrato da Itália dos anos 1970, devastada pelas bombas de direita e pelos tiros de esquerda.

Quem são os vultos que vê Alina, em “As Perguntas” (Companhia das Letras), de Antônio Xerxenesky, que comecei a ler e não consigo parar?

O grande exército dos mortos dos nossos dias são os terroristas; são eles, hoje, que propagam e amam a morte, dos outros e deles mesmos.

E sua última aparição foi logo em Barcelona, onde, décadas atrás, os franquistas já gritavam “Viva la muerte!”

Fonte: Folha de São Paulo

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