Riscos de morte e riscos de vida | Por Contardo Calligaris


Mariza 17.ago.2017É uma pergunta que volta regularmente nos blogs de dificuldades da língua portuguesa: qual é a expressão certa, “risco de vida” ou “risco de morte”?

Parece que, no risco de morte, a pessoa se arrisca a encarar a morte e, no risco de vida, se arrisca a perder a vida. Se quisermos transformar os substantivos em verbos, será preciso usar verbos diferentes: o risco de morte seria risco de morrer, mas o risco de vida seria risco de perder a vida, e não risco de viver. Aliás, dirão alguns, com ironia, o que seria o “risco de viver”? Se você riu com a ironia da pergunta final, reconsidere: na verdade, existe, sim, um risco de viver e não se confunde com o risco de perder a vida.

Você lembra de “Ideologia”? Cazuza cantava “o meu prazer agora é risco de vida”, sexo e drogas (sem nem sequer o rock and roll, aliás).Certo, esse é um risco de vida como perigo de perder a vida. Mas que vida seria essa, sem sexo e drogas? “As ilusões estão todas perdidas, os meus sonhos foram todos vendidos”, isso seria viver? A ideia da música é que viver é uma ousadia, um pulo no escuro, uma aventura da qual não se sabe como acaba. É preciso correr o risco de viver.

Para resolver o dilema linguístico, digamos que, segundo o caso, risco de vida e risco de morte podem significar a mesma coisa (o risco de morrer), mas “risco de vida” significa também algo bem diferente. O risco de vida é o risco que corremos por vivermos, porque viver de verdade é sempre, inevitavelmente, um risco.

Viver é se arriscar. E quem não corre o risco de viver não vive, vegeta. Alguém perguntará qual seria, então, o risco de viver, o risco que definiria a vida?

Anne Dufourmantelle, 53, filósofa e psicanalista francesa, no seu lindo “Éloge du Risque” (Payot, 2011), notava que vivemos hoje na precaução, no prognóstico e na tentativa de prever as perdas possíveis e de evitar assim o pior. Ela se perguntava que lugar ocuparia o desejo numa cultura que considerasse que o risco é uma loucura, heroica ou maluca.

Acrescentava que o risco não é tanto um ato pontual quanto uma maneira de ser, um jeito de estar no mundo com coragem, mesmo sem gestos extremos ou momentos de perigo. O risco de quem se arrisca a viver (risco de vida) é aceitar um desejo que nem nós mesmos conhecemos, um novo amor, uma paixão, a liberdade, a infidelidade, o risco de se separar ou de encontrar alguém, o risco de desapontar o outro, o risco de pensar além do que já sabemos, de não repetir as trivialidades compartilhadas.

Anne Dufourmantelle escreveu vários livros (em português, “Falar da Hospitalidade”, com Jacques Derrida, Escuta, 2003) e era colunista do diário “Libération”. Eu lia seus textos e a sentia, de alguma forma, próxima de mim, por ela ser psicanalista e filósofa e, justamente, por sua ideia de que, para viver, é preciso correr risco de vida.

Nos meus termos (que expressam, acho, o mesmo pensamento), para viver é preciso que a vida não seja o valor supremo. É uma ideia que alguns podem achar estranha, porque consideram que instaurar a vida como valor supremo da gente é um grande progresso de nossos tempos.

Ora, eu não sei qual é o valor supremo certo (sequer sei qual é o meu): pode ser o desejo, a busca do prazer, a liberdade política ou individual etc., mas a ideia de que preservar a vida seja o valor supremo sempre me pareceu uma forma de decadência moral. Explico.

Por que a vida não seria o valor supremo? Simples: um valor é aquela ideia, aquela escolha ou conduta pela qual estamos dispostos a sacrificar nossa vida. Sempre foi assim.

Desde o século 19, o higienismo tenta colocar a sobrevivência como valor supremo. Agora, aceitar essa proposta significa aceitar uma ética simplificada e sinistra, em que 1) o que é bom para a saúde seria também moralmente bom, 2) nenhum valor poderia exigir nosso sacrifício de vida, pois, dessa forma, ele contradiria o valor supremo, que é sobreviver.

No fim de julho, na praia de Pampelonne, em Ramatuelle, no Var (França), tentando socorrer o filho de uma amiga que estava sendo levado pela correnteza, Anne Dufourmantelle se afogou.

Como ela mesma diria, Anne, socorrendo o menino, não decidiu correr risco de morte. Mas ela correu o risco de viver, ela se arriscou a viver –porque viver é também se jogar no mar sem hesitar, para salvar uma criança.

Fonte: Folha

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