A dose certa | Gláucia Leal


Um pouco de estresse faz bem. Quando nos preparamos para expor um ponto de vista, fazer uma viagem tão sonhada ou apresentar um projeto numa reunião profissional, a resposta cerebral entra em ação para aguçar a atenção, o estado de alerta e nossa predisposição para “lutar ou fugir”. Nos primórdios da evolução humana, para sobreviver era preciso enfrentar feras. Hoje, grande parte dos embates ocorre no dia a dia e, em especial, no ambiente profissional. Daí a conclusão, bastante compreensível, de que a sensação de nos sentirmos pressionados, capaz de operar transformações físicas e mentais “necessárias” para a sobrevivência, pode ser benéfica. Mas, como sabiamente disse Paracelso (pseudônimo do médico, físico e alquimista alemão nascido no século 15 Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim), “a dose certa diferencia um veneno de um remédio”. Ou seja: se a sobrecarga é muito frequente, a mente e o corpo sofrem com o excesso – e aí surgem as manifestações patológicas que, em casos extremos, podem levar à morte. Embora a maneira como ocorre esse processo (mais letal para uns que para outros) e as formas de evitá-lo ainda intriguem especialistas, várias pesquisas têm mostrado que medidas cotidianas aparentemente simples têm efeitos tanto psíquicos quanto bioquímicos importantes, capazes de aliviar e reverter sintomas provocados pela exaustão mental e emocional continuada.

Obviamente, a responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente ao sujeito. Como acontece com qualquer epidemia, o estresse não tem influência apenas sobre os indivíduos – também estão envolvidos aspectos culturais, sociais e econômicos. Estima-se que o prejuízo decorrente de faltas no trabalho, baixa produtividade, acidentes e doenças em decorrência do problema chegue a algumas centenas de bilhões de dólares. No Brasil não há estatísticas oficiais, mas certamente a situação seria é melhor se organizações investissem numa “educação para a diminuição dos índices do estresse”, incentivando a autonomia e a criatividade dos profissionais, e oferecessem rotinas mais flexíveis. Enquanto essa consciência não é disseminada, cabe a cada pessoa se perguntar, com alguma periodicidade, quais são suas prioridades.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_dose_certa.html

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