Filme “Fala Comigo” questiona repulsa repulsa por relacionamentos mais velhos | Por Contardo Calligaris


Tempo atrás, bem antes da existência da internet e dos aplicativos para encontrar amores, em Paris, eu atendia um jovem psicólogo que queria se tornar psicanalista.

Depois de anos de análise e de estudos, um belo dia, ele mudou de rumo e decidiu abrir uma agência matrimonial. Talvez essa mudança fosse um jeito de ele sonhar com um melhor casamento entre os seus pais, os quais tinham se separado quando ele era criança.

Mas ele propunha outra explicação, bem racional: uma parte considerável do sofrimento das pessoas era o efeito dos fracassos amorosos e da solidão forçada. Diante disso, ele entrevia duas respostas: ser casamenteiro e ajudá-las a encontrar um casal ou ser psicanalista e ajudá-las a aguentar sua solidão. Ele concluía que seria mais gratificante ajudá-las a encontrar um casal.

Pensei nesse meu antigo paciente assistindo ao filme de Felipe Sholl “Fala Comigo”, que estreia na semana que vem, dia 13.

Imagine que você seja uma mulher, acima dos 40, aflita porque acaba de se separar e encara a possibilidade de ficar sozinha para sempre, e isso não é o que você quer. Sua psicanalista se preocupa e acha você “instável”; ela ajuda você a aguentar a tempestade e, em tese, a procurar as “causas inconscientes” que talvez tornem difícil para você “encontrar alguém”.

Cá entre nós: é possível que você tenha “causas inconscientes” para isso, mas, de fato, encontrar alguém é sempre difícil.

Em suma, sua psicanalista parece querer lhe ensinar uma forma de resignação: quer seja diante de uma frustração (você não está encontrando ninguém, por preguiça ou falta de sorte), quer seja diante de uma privação (não tem como “encontrar” ninguém, porque os “parceiros” só existem em devaneios e filmes). Mas o fato é que você acha que, se encontrar um novo amor, você será curada.

Em “Fala Comigo”, a analista lida com uma concorrência desleal: é seu próprio filho, Diogo, que oferece uma lufada de paixão e de desejo à paciente, Ângela. Por que não? Infelizmente, a psicanalista não pode prescrever o filho como remédio a todas as pacientes tristes por não encontrarem ninguém.

Mais um detalhe: o filho da psicanalista tem 17 anos e a paciente deprimida, 43. Note-se que Felipe Scholl escreveu o roteiro muito antes que Emmanuel Macron se tornasse presidente da França, popularizando o tema da diferença de idade no casamento.

Não acredito que a idade diferente constitua uma dificuldade de convivência (de qualquer forma, por mais que os pais controladores tentem se esquecer disso, a idade do consentimento sexual, no Brasil, é 14 anos).

A vulgata psicanalítica parece sugerir que um jovem que ame uma mulher mais velha esteja obedecendo a seu complexo edípico –ou seja, que de fato ele tente amar sua mãe.

Tendo a pensar o oposto: para que um adolescente consiga se relacionar com alguém que poderia ser a mãe dele, é preciso que ele NÃO seja obcecado pelo pensamento da mãe. Pois esse pensamento impossibilitaria a relação.

Quem sofre de um Édipo severo não é o moço, mas os adultos que não aguentam que as “crianças” namorem mulheres ou homens “maduros”. Provavelmente, esses adultos precisam fugir da ideia de que possa existir alguma atração entre adultos como eles e seus filhos ou filhas –eles precisam negar a atração que eles sentem.

Enfim, um jeito de se opor a uma relação como a de Diogo e Ângela consiste em dizer que a coisa não vai durar.

Anos atrás, no começo do que parecia ser um namoro, uma mulher me perguntou se eu estava bem de saúde. Era um jeito de ela evitar uma relação que poderia ser encurtada por doença ou morte. Eu estava ótimo, não adoeci, e foi a mulher que se afastou de mim, seis anos depois.

Enfim, a pergunta era legítima e não me ofendeu, mas por que a duração é para nós um critério? Confundimos a duração de uma relação com sua relevância. Talvez porque pedimos a cada casal que formamos que seja o último, ou seja, uma espécie de seguro contra as solidões futuras.

Não sei quanto tempo pode durar o romance de Ângela e Diogo, mas lhes desejo grandes momentos. Ao filme também.

Aviso: Saio de viagem até o fim de julho. Quero revisitar lugares da minha infância e adolescência e quem sabe descobrir o que é, para mim, hoje, a Europa. Volto à coluna no dia 3 de agosto.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2017/07/1898810-filme-fala-comigo-questiona-repulsa-por-relacionamento-com-mais-velhos.shtml

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