Precisamos nos educar sobre assédio


No lançamento de um de seus livros, o diretor de teatro Gerald Thomas achou por bem colocar a mão debaixo do vestido da jornalista que o entrevistava para o programa Pânico na TV, Nicole Bahls. Como se este ato não fosse uma violência com o corpo e a dignidade daquela mulher que estava trabalhando, como se ele não estivesse sendo televisionado ao praticá-lo, como se não fosse culpado, como se não fosse um crime.

Na época, pouco se debatia sobre a questão do assédio sexual no Brasil, mas muitas pessoas na internet tinham opinião sobre o ocorrido e a maioria ia contra Nicole, argumentando que sua posição de “panicat” e suas roupas na ocasião, de alguma forma, justificavam a violência que ela sofreu, demonstrando que o assédio que acontece em ambiente de trabalho, que é reconhecido por lei como crime, se estende facilmente para locais públicos como a internet e as ruas, e as mulheres estão sujeitas a esta violência simplesmente por serem mulheres.

A recusa de veículos femininos em pautar o caso de uma maneira mais justa foi a última faísca necessária para o nascimento da Campanha #ChegadeFiuFiu, como uma das ações da ONG Think Olga. Depois de muitas reflexões em nosso site (thinkolga.com), da criação de um mapa que traça a situação do assédio de rua no Brasil (bit.ly/Mapa-CdFF), além de uma das primeiras pesquisas com relação ao assunto (http://bit.ly/pesquisa-CdFF), finalmente pudemos ver avanços sobre a discussão na mídia e em corporações, muitas delas passando a contar com o nosso conhecimento para educar seus funcionários sobre o problema.

E, dos nossos maiores aprendizados com este trabalho de combate ao assédio, é que a coragem de uma mulher para denunciar é o incentivo de muitas outras, pois juntas, somos mais fortes. Foi assim com o nascimento da #ChegadeFiuFiu, que recebeu depoimentos de muitas mulheres sobre como o assédio afeta suas vidas, muitas delas falando sobre o problema pela primeira vez.

E foi assim com a advogada Anita Hill, que testemunhou contra Clarence Thomas, na época da nomeação dele ao Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, por assédio sexual durante o período em que trabalharam juntos na Comissão de Oportunidades Iguais de Trabalho.

Desacreditada em julgamento e pela imprensa, Anita quase pensou em desistir de seguir em frente com a acusação. Inclusive, ainda há um caminho a percorrer, já que Clarence Thomas continua no cargo que lhe foi dado, mas sem prestígio.

A partir da luta de Anita, que foi recentemente relatada no filme Confirmation, muitas mulheres criaram coragem para denunciar seus colegas de trabalho por assédio sexual e escreviam para ela falando sobre a questão. Além disso, a atitude de Anita colaborou para um movimento político, aumentando substancialmente a participação de americanas em sessões do congresso e na concorrência para cargos administrativos, pois perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava questões de gênero.

Em um ambiente político em todas as suas burocracias, não é tão fácil derrubar um homem no poder, tampouco reverter a situação de desigualdade de representação feminina, mas fato é que Anita Hill, com sua coragem, influenciou muitas mulheres a lutarem por isso. Hoje, presenciamos esta mudança, que acontece de maneira gradativa, mas acontece.

E fato é que Anita não conseguiria dar este pontapé para a mudança sozinha. Assim como a figurinista Susllem Tonani, também precisou da empatia de outras mulheres em sua denúncia contra o ator global José Mayer, publicada no blog #AgoraÉqueSãoElas, na Folha de S.Paulo (http://bit.ly/2mVHqh1). Inicialmente, Susllem foi desacreditada pelo próprio ator, que alegou que a profissional estava confundindo sua personalidade na vida real com a de seu personagem Tião, o vilão da última novela que esteve no ar no horário nobre da Rede Globo.

Mas para as funcionárias da emissora, incluindo atrizes famosas, muitas que já contracenaram com Mayer, #MexeuComUmaMexeuComTodas, e elas se uniram para iniciar a campanha #ChegadeAssédio. A Globo então viu a importância de apoiar suas funcionárias e o ator se viu pressionado a pedir desculpas publicamente, muito embora minimize o problema chamando-o de “erro”: https://glo.bo/2naKXI9. No comunicado, o ator que está afastado de atividades na emissora, diz que desculpas não são o suficiente. Isso é fato, afinal, assédio é crime.

Assim, mais este caso público, demonstra a importância de ouvir a vítima de assédio sexual e de apoiá-la, principalmente quando o caso acontece dentro de uma marca ou empresa, em frente a outros funcionários. Mas ainda mais urgente do que conter uma crise como a que a Rede Globo precisou conter, afastando um ator consagrado de sua grade, é educar para que o problema nem mesmo aconteça.

A Think Olga é uma ONG de empoderamento feminino por meio da informação. Para ficar sabendo mais sobre as nossas atividades, assine a nossa newsletter ou visite o nosso site www.thinkolga.com

Texto de Nana Lima, disponível em https://goo.gl/g6I761

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