Pega vida


Há uma música do Kid Abelha chamada “Pega vida” da qual alguns trechos quero destacar nesse artigo.

“As ideias muito simples são difíceis de aceitar”

Vivemos tempos cujo tempo engoliu a si mesmo. Chronos não devora apenas seus filhos, mas vive uma autofagia. Demoramos para notar as coisas simples da vida, como o nascer do sol, a chuva que cai, o canto de pássaros (caso tenha árvores por perto para eles pousarem), dentre outras coisas. Se as coisas simples são quase imperceptíveis, as complexas experiências de nossa vida são vivenciadas de forma intensa, mas de modo rápido e repetidas quase compulsoriamente e de novo, de novo, de novo. Quase um gozo obsessivo-compulsivo, onde tudo passará no último instante, mas acontecerá de novo. As ideias muito simples tornaram-se difíceis e monótonas para serem notadas. Tudo brilha, reluz, é touch, mas rápido demais para ser experimentado. E isso é terrível! Desprovido de sentido. E o nonsense é algo inumano. Estamos à beira do abismo da biologia como determinante da vida e tal linha, quando ultrapassada, nos desumaniza.

“Não é tão complicado ter prazer em dar prazer”

Essa é uma frase que instiga muitas reflexões, mas talvez a principal seja a predominância da cultura narcisista espetacular, no qual não nos relacionamos com um “outro”. Já não conseguimos perceber, captar o outro como outro ser que deseja. Nossos relacionamentos têm como base a ideia e expectativa de que o outro seja alguém que me fará feliz, me dará o prazer de viver, já que não encontro prazer mais em ser para o outro. Reconhecer o outro como um sujeito realmente desejante e diferente em de mim pode ser algo angustiante e mesmo desastroso, já que o outro não terá que cumprir as minhas expectativas. Percebamos como isso nos coloca no centro de uma reflexão: quem sou eu, quem é o outro na relação comigo, como é o outro? Enfim, a simplicidade que consiste em ter prazer ao dar prazer ao outro encontra como barreira a nossa incapacidade de ver, perceber e encontrar o outro. Temos feito do outro um espelho de nós mesmos.

“E se deixar levar, antes de tudo se acabar”

Recentemente li um livro budista sobre o desapego. O nome é “No coração da vida: sabedoria e compaixão para o cotidiano” da monja Jetsunma Tenzin Palmo. Entre tantas ideias desenvolvidas, a monja apresenta a infelicidade como oriunda do apego que temos desenvolvido ao longo da vida. Apego às coisas, pessoas, situações, enfim. O apego é visto por nós como o vínculo necessário para manifestação do famoso amor. Como se amar fosse possuir e se constituir entre limites, em algo duradouro quase eterno. E assim nos esquecemos de algo que constitui nossa existência entre o nascer e o morrer: a impermanência de tudo, ou seja, a fluidez de tudo que experimentamos. O próprio nascer e morrer são partes desse movimento existencial. Deixar-se levar antes de tudo acabar inclui amar antes que o amor acabe ou passe, doar-se enquanto o outro precisa, ouvir enquanto as palavras são ditas, ser amigo enquanto ainda é possível. E ser passado por esse momento enquanto ele existe, sem reservas para um amanhã, para um depois. Sem postergar a vivência, mas em apegar-se como um único modo de vivência (ou sobrevivência nesses tempos de mudanças constantes).

Enfim, trata-se de pegar a vida. E vivê-la!

 

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