O amor ainda é o suficiente


Há uma frase de Freud que, particularmente, me fez repensar minhas escolhas no último ano: “Em última análise, precisamos amar para não adoecer”1.
Dentre as muitas ambições humanas, as nossas ambições, o dinheiro, segurança, estabilidade financeira tem ganhado destaque. E na correria para conquistá-los envolvemo-nos em uma série de atividades que transmitem um tom de normalidade das coisas: trabalhamos, estudamos, temos algum vínculo familiar e de amigos, festejamos. Enfim, participamos do grande formigueiro chamado vida, com funções estabelecidas, sonhos comprados em livros de autoajuda e produções hollywoodianas. Há até milagres disponíveis todas às terça e quintas em diversos templos de variadas denominações. Pode-se dizer que padecemos de uma doença grave chamada normalidade. Caminhamos cotidianamente felicitados com o nosso poder aquisitivo -para aqueles que já o tem – , ou nos desgastamos lutando para ter um maior poder de compra. E onde fica o amor nisso tudo?
Faço breves comentários sobre a obra “Como eu era antes de você”, de Jojo Moyes, que foi transformada em filme. Um tema polêmico é tratado, o direito a morte assistida. Mas não o discutirei agora. O tema detalhadamente descrito, porém, mais difícil para a maioria foi o amor. Ah, o amor!
A personagem levava uma vida organizada, mas sem grandes ambições, sem muita paixão, apenas cotidianamente repetida. A busca por um novo emprego desloca sua centralidade, sua organização, sua visão de mundo é modificada. O amor tem algo disso: descentralizar nossa vida, ou talvez seja melhor dizer, redireciona nossa vida para outros pontos de vistas aos quais não estávamos acostumados.
Em virtude de vivermos em uma sociedade marcada pelos caracteres do cristianismo, esperamos – e entenda que aqui se funda uma “esperança” quase no sentido teológico, mesmo para os não crentes – que o amor salve, mude, arrume, alivie tudo, cure os males (aqueles que julgamos a partir de alguma moral em nós estabelecida). Enfim, o amor é a salvação. Não que eu discorde desse ponto de vista. Mas é preciso ainda assim estar aberto para outros pontos de vista. O amor é uma espécie de salvação, e por vezes uma salvação de nós mesmos, da nossa monotonia, do excesso de tentativa de controle da nossa vida, da vida do outro, do modo como o outro pode ou não sofrer. O amor talvez nos ajude a ver que mesmo quando queremos ainda assim não podemos mudar o outro. Apenas aceitá-lo, e ser alguém ao lado, junto do outro. Não tem nada de romântico, mas de só de humano. E é estranho ser humano o tempo todo, por isso nos envolvemos com muita coisa, atividades e tantos outros excessos para sermos apenas uma máquina respondendo coordenadas ou formigas dentro do grande ciclo da vida.
O amor ainda é o suficiente para dar algum sentido às experiências que fazemos. E pode ser que o sentido não venha com um manual (religioso, técnico, científico…) dizendo o que é certo ou errado. Resta-nos uma escolha diante das escolhas e isso chamamos “liberdade”. Talvez seja a última finalidade do amor: nos conceder a liberdade de ser quem somos no momento que existimos.
1. FREUD, Sigmund. Introdução ao Narcisismo. Obras Completas. Edição Standard Brasileira.

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