A cura


Retomando a leitura de alguns textos para iniciar a escrita do meu trabalho de conclusão de curso, reencontrei na escrita de Joel Birman a crítica desde o início da obra de Freud sobre a posição fisicalista do sujeito. O que é isso? É simples. Talvez.

Hoje parece uma necessidade quando vamos aos médicos, psiquiatras, especialistas e psicólogos (que sonho seria se procurassem psicólogos com facilidade), enfim, quando vamos aos médicos queremos que nos seja dada a pílula correta que ingerindo resolva os problemas. Ou que seja indicado qual procedimento cirúrgico curará minhas dores. Não sejamos hipócritas: quem busca a medicina ou qualquer outro tratamento é óbvio que quer ser curado. Mas vejo que o problema não é esse, ainda. Apesar se construirmos juntos uma época narcisista, fundada na exteriorização do sujeito nas mídias pelo ângulo que melhor couber para o teatro social, padecemos de parâmetros. Limites, diriam os antigos, que agora não são dados mais pela moral, mas pela física, pela química com as quais nos definimos sujeitos. Carecemos de sentido. É nesse âmbito que a materialidade atinge seu ápice. Sentido não tem a ver com matéria, mas como destinos que damos aos nossos desejos, com a forma como lidamos com ele – que às vezes pode ser materializada ou não. Sem críticas vazias e esdrúxulas, mas temos corpos sarados e bonitos carentes de sentido – a longo prazo, eu diria. Temos (pelo menos podemos) transado com frequência e carecemos do afeto. Frequentamos ótimas escolas e mesmo assim vejam quantos bandidos de alta classe filiados a partidos políticos. Enfim, temos necessidades preenchidas, mas não necessariamente sanadas. Por que somos um profundo poço de desejo, eternamente insatisfeitos.

Então, como uma pílula, um procedimento cirúrgico, uma prática espiritual, uma terapia aplicada pode resolver tudo? Nossas neuro – ciências, psicologias e demais – podem explicar muitos processos, mas estamos em processo, dando sentido, significado a cada “novo” que se apresenta. Não somos determinados, somos sobredeterminados por fatores que desconhecemos, ignoramos ou independem de nós. Cabe aqui aquela humildade socrática de saber que não sabemos. E longe de trazer angústias infindáveis, esse não saber pode gerar uma abertura ao conhecimento de nós mesmos, do outro, das relações que estabelecemos. Tamanha exigência de parâmetros rígidos – mesmo que cientificamente – me lembra os tempos em que os dogmatismos eram mais importantes que o humano. E sabemos o terror que foi isso pra história humana.

PS: Recomendo a leitura do livro de Joel Birman: As pulsões e seus destinos, da Editora Civilização Brasileira, disponível para aquisição aqui.

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