A culpa é dos pais


O título não é uma pergunta, é uma afirmativa muito comum em pessoas que ignoram alguns elementos do processo relacional pais e filhos. Ignoram por desconhecer talvez, ou por maldade de críticas desmedidas e desnecessárias, diga-se de passagem.

Não tenho filhos, mas tenho sobrinhos e participei da educação de alguns deles na primeira e segunda infância. Há um ditado popular que diz: “Os filhos são uma bênção!” Mas para alguns pais parece mais um grande purgatório1. E você já percebeu como é difícil fazer com que as crianças tenham comportamentos aceitáveis aos padrões sociais de determinados ambientes?

Sim, é muito difícil. Os pais orbitam entre as expectativas criadas sobre eles (serão bons pais, darão conta de educar corretamente, serão zelosos, demonstrarão afeto suficiente, saberão dar limites) e os seus próprios problemas inconscientes do passados (repetirão os comportamentos de seus pais, conseguirão superar o que não receberam de seus pais, saberão priorizar as necessidades dos filhos). Em meio a tudo, estamos inseridos nos mais diversos contextos sociais de convivência. E para amenizar algumas culpas paternais bem como ajudar os pais na sociabilização das crianças, eis alguns pontos:

Primeiro, crianças não são adestráveis e por isso não se comportarão sempre da forma como DIZEMOS para ela se portarem. Até mesmo os animais variam seus comportamentos após o adestramento/treinamento. Imagina se crianças com vontades diversas ficarão paradinhas como a maioria das pessoas querem que elas fiquem! Só em um sonho estranho isso funcionaria. Elas são pessoas, não objetos decorativos. Segundo, crianças estão conhecendo o mundo e farão todo e qualquer tipo de experimentação possível ao seu alcance a fim de simplesmente conhecer o ambiente, as pessoas e demais elementos que compõem seu universo sensorial. Então não se esqueça: elas vão variar o comportamento conforme a curiosidade lhe indicar. E isso, em termos religiosos, podemos dizer que é uma bênção. Criança que busca aprender é um bom sinal de desenvolvimento saudável. Alegrem-se, pais!!!

A constituição do psiquismo na infância é um processo complexo e dinâmico. Analisar uma relação pelos clichês sociais ou as fórmulas de livros de autoajuda é desconsiderar a multiplicidade humana. É óbvio que educar não é um processo simples, não vem com manual. É certo que os pais erram, que muitas vezes estão tentando fazer o seu melhor. Os pais desejam o bem para seus filhos, mas é sempre um processo novo e desafiador estabelecer um vínculo saudável com o filho. E esses vínculos variam de um filho para o outro. É nessas variações que as fórmulas, compradas em livros de autoajuda, programas fúteis de TV e tantas outras propagandas, falham.

A maternidade e a paternidade não são instintos humanos, são criações individualizadas. São o resultado de aprendizados ligados aos processos culturais. E por isso varia de uma sociedade para outra. Procriar é um aparato biológico, instintual. Mas, contudo, no entanto, todavia, gerar filhotes é totalmente diferente de ser mãe ou pai. Procriar é uma parte do processo de geração do humano. As funções maternas e as paternas dão forma, estrutura e funcionamento ao novo humano que se desenvolve.

Por isso, na próxima vez que encontrar os pais com dificuldades de estabelecer limites saudáveis aos seus filhos, pense que poderia ser você, aprendendo a lidar com um novo ser humano ainda em formação. Um pouco de paciência e contato com o diferente nos permite desenvolver o respeito a diferença, a diversidade humana e a necessidade de ampliar as fronteiras do convívio humano.

 

1 Purgatório é um conceito católico para explicar um lugar/período/estado anterior a entrada no céu, cuja finalidade é purificar as almas de seus pecados. Lá o pesar e o padecimento são características do processo de purificação.

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